quinta-feira, 20 de outubro de 2016



Gosto de pensar
Um pensamento bobo.
Eu, aqui, descendo essa rua.
Vejo uma árvore.
A garotinha lá no Nepal.
Vê uma outra
Que talvez não seja tão outra.
Mesmo não sendo a mesma.
Azerbaijão, Canadá, Japão.
Todos os olhos não olham na mesma direção.
Gosto de pensar um pensamento.
Esse já não acho tão bobo.
Enquanto, no meu prato arroz e feijão.
(poucos comem salmão)
Em muitos outros o prato está vazio.
Não é o mesmo prato.
O cheio, o pouco, o vazio.
Mas talvez não seja outro.
Mesmo não sendo o mesmo.
Só é muito, só é pouco, só é vazio.

Vazio meu coração fica com esse pensamento

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Criança vodu


Queria ver o show do Jimi Hendrix na Califórnia.
Mas eu não estava lá.  A garota de cabelos compridos ficou
Muito perto. E se esticasse o braço tocaria as pernas dele.

As crianças de Bangladesh tomam água suja de enchente
E morrem de diarréia. Eu não nasci ali. Nem fugi pra cá. 

Quem vem pela estrada e fica num baita congestionamento,
Pode ver. À noite sobre uma colina de Guarulhos, as luzinhas.
As casinhas. Tem gente que vive lá. Não eu.

Eu poderia ter sido o Riobaldo do Grande Sertão. Mas sou de carne
E osso. Não tenho estofo de personagem de livro.
Outra história é a minha.

Estação Paraíso, São Paulo. Encostada na parede,
A mulher espera o metrô. Ela me olha de perfil.
Não. Eu não estou nem aí.

Henrique Ostronoff

9 de agosto de 2004

sexta-feira, 11 de abril de 2014

1º encontro de escritores de Sorocaba e Região


A arte da escrita
Sueli Aduan
O ato de ler é revolucionário, pois amplia e torna mais complexa a nossa visão de mundo, consequentemente inovando nossa escrita. Baseada nessa premissa; e ciente de que o compromisso com o potencial criador da escrita nos permite adentrar no universo da beleza literária; é que me propus realizar a palestra "A arte da escrita", cujo objetivo fundamental é estimular os participantes a aplicarem algumas técnicas da escrita que, aliada à sensibilidade de cada um, possibilitará o desenvolvimento de textos literários de qualidade e de satisfação pessoal.





domingo, 20 de outubro de 2013

"Encontro Marcado"

 
O poeta, com seu olhar,

capta instantes fotográficos.

Paralisação do tempo.

Momento presente.

Encontro marcado.

Homem e vida.

Saber oculto.

Seu olhar transforma

a ameaça do futuro.
 
No instante preenchido.
 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

DEVORAGEM




Assim vejo a mim:
perdida dentro de um homem.
Sedenta de paixão e desejo.

Uma mulher.
Com a boca molhada,
entreaberta para o beijo.

Corpo e movimento.
Pernas e pêlos.
Silêncio e sussurro.

Assim vejo a mim:
perdida dentro de um homem,
mãos e seios.

Querências.
Pulsação e orgasmo.
Na voragem o amanhecer


terça-feira, 21 de maio de 2013

"Não me procures ali"

Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos 
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho
Pedra, semente, sal
Passos da vida. procura-me ali.
Viva.    Hilda Hilst                                                                            

Jukuchu-1789

terça-feira, 16 de abril de 2013

Recordantes

Houve uma época em que eu gostava de azeite de oliva. O cheiro, o sabor levemente adocicado, a textura, a maneira suave e lenta como ele escorria pelo vidro, a beleza dos vidros, a cor numa variação entre o amarelo claro-escuro e o âmbar. Eu salivava só de vê-los nas gôndolas ou sobre a mesa. Ainda gosto.Mas não salivo.

Houve outra época em que eu gostava de maças. A vermelha escura, lisa, brilhante, estriada de veremlho carmim com sabor doce, e delicadamente perfumado. Colhê-la com minhas próprias mãos provocava, além de uma intensa salivação, um frenezi na menina que eu, então, era..Ainda gosto. Mas não salivo.

Houve uma época, a mais distante de todas, em que eu era toda sorriso, um sorriso escancarado, largo, meus olhos brilhavam feito duas jabuticabas. Eu abria a janela do meu quarto só para ver o velhinho de barbas brancas, gorro vermleho, botas pretas, que passava nas noites estreladas de Dezembro na rua do meu bairro. E lá do alto eu o chamava - papai, papai Noel e seu olhar calava fundo em mim.

Houve outras épocas, outros gostares.Hoje me são indiferentes azeites, maças, papais nóies e tantos outros sentires.
Feito o poeta, eu que sou poeta menor, também digo:
"Trago dentro do meu coração, 
Como num cofre que se não pode fechar de cheio, 
Todos os lugares onde estive
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero..."